Sobrinho Simões. Cancro não terá vacina mas pode ser cada vez mais controlado

Dois terços das pessoas com cancro sobrevivem, o que significa que apenas uma em cada três morre da doença. O futuro passa pela prevenção, rastreio e literacia e não por uma cura única, sublinha o patologista português.

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José Pinto Dias - RTP

O cancro não terá uma vacina nem uma cura universal, mas está cada vez mais próximo de ser uma doença controlável. A mensagem é clara e vem de uma das vozes da medicina portuguesa: Manuel Sobrinho Simões.

O patologista e diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) defende, em declarações à agência Lusa, que o grande avanço no combate ao cancro está no “controlo da doença, na prevenção e na informação” e não na promessa de uma solução milagrosa.

Todos os anos, no mundo, o número de cancros aumenta, mas "as pessoas que morrem de cancro não têm aumentado", sublinha o investigador. Para Sobrinho Simões, vencedor do Prémio Pessoa em 2022, este dado traduz um progresso decisivo: “Não podemos falar em cura, mas falamos em controlo. E perceber isso é muito importante”.

Atualmente, cerca de dois terços das pessoas diagnosticadas com cancro já não morrem da doença, um resultado que o patologista considera “muito bom”. O mesmo se verifica no cancro da mama, em que 70 por cento das doentes sobrevivem, contrariando a imagem ainda assustadora associada à palavra “cancro” em Portugal.É precisamente para desmontar mitos, esclarecer dúvidas e aproximar a ciência dos cidadãos que arranca na terça-feira a quinta edição do ciclo “Tratar o Cancro por Tu”, uma iniciativa do IPATIMUP, em parceria com a Antena 1. A edição prolongar-se-á até março em várias cidades do país, incluindo Matosinhos, Guarda, Évora, Viana do Castelo, Guimarães e Angra do Heroísmo.


“O que vai aparecer são cada vez mais situações que conseguimos controlar. Cada doente e cada cancro têm uma especificidade. Não é a mesma coisa do que uma vacina”, afirma Sobrinho Simões.

O objetivo das sessões é tornar a linguagem científica acessível e ajudar as pessoas a compreenderem o que podem fazer- desde mudanças na alimentação até à adoção de comportamentos preventivos- para transformar, sempre que possível, o cancro numa doença crónica controlável.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Apenas 40 por cento dos casos de cancro podem ser antecipados através do rastreio, embora esta seja uma área na qual se verificaram melhorias significativas.

O patologista sublinha ainda que 90 por cento dos cancros não são hereditários, desmontando outro equívoco comum. “O cancro é uma doença genética porque envolve alterações nas células, mas na maioria dos casos não resulta de genes herdados dos pais”, explica, apontando exemplos como o tabaco, que provoca mutações genéticas sem carácter hereditário.

A edição deste ano de “Tratar o Cancro por Tu” centra-se na prevenção, deteção precoce e tratamento e conta com a participação de especialistas nacionais e internacionais. A sessão inaugural, em Matosinhos, tem como convidada Elisabete Weiderpass, diretora da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC), que alerta para o facto de a Europa continuar a enfrentar “grandes desafios” no aumento de novos casos.

Para Weiderpass, falar diretamente com os cidadãos “com clareza, empatia e verdade” é essencial para quebrar tabus e melhorar as estratégias de prevenção e controlo da doença.Uma visão que está no centro desta iniciativa, já responsável por 24 sessões, mais de 3.500 participantes e presença em 15 cidades.

A prevenção do cancro, segundo Sobrinho Simões, deve passar pela consciencialização, defendendo que “as pessoas precisam de saber que o cancro não é uma infeção, mas sim uma doença que surge de dentro do próprio corpo”, pela desmitificação da doença e na educação ativa, de forma a que os jovens compreendam o conceito e adotem medidas preventivas.

“Tratar o Cancro por Tu” inclui também podcasts e conteúdos disponíveis na RTP Play, com o objetivo de reforçar a literacia em saúde e demonstrar que o cancro é, cada vez mais, uma doença tratável e controlável e não uma sentença inevitável.

c/ Lusa
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